O que é Excêntrico Musical?

Imagina um pomar. Ele se chama Pomar das Artes da Cena. Entre as muitas árvores, a Bela Dança, o Carvalho Teatro, tem um pé de palhaço. Não é uma árvore frondosa ou mirrada. Mas tem raízes profundas e uma flexibilidade invejável. Um dos galhos desse pé-de-palhaço se chama excêntrico musical. Um de seus ramos mais antigos, tão velho quanto a árvore em si, dá frutos de rara beleza aos olhos e ouvidos. Mas não é uma beleza fugaz. É a beleza da graça. A graça de fazer graça e música, música e graça confere um sabor especial a esses frutos. Um fruto que intriga por seu sabor peculiar, onde não dá pra saber onde o gosto da graça termina e o da música começa e vice-versa. Os frutos deste galho ainda espalham sementes que brotam sem vergonhas. Cada link é uma folha ou flor desse galho.

Garrafas plásticas afinadas com ar comprimido, armas de fogo que soam com guitarras, afinação de pingos d’água...a criatividade das pessoas não tem limites quando se trata da criação e invenção de instrumentos musicais. Aqui você encontra links para construção do seu próprio instrumento excêntrico além de inspiração e motivação artística.

Há quarenta anos comecei minha carreira como palhaço. Quando me juntei ao Circo Teatro Udigrudi jamais imaginaria que essa carreira fosse tão longa e frutífera. Desde o início, o Udigrudi sempre se pautou pela música e a musicalidade da cena. Nas primeiras apresentações da companhia, em 1982, os palhaços eram acompanhados pelos “Irmãos Liga Tripa”, Caloro e Márcio Vieira. Este último, sempre teve ideias excêntricas sobre música e o fazer musical. Engenheiro de formação, Mació (como é chamado pelos amigos) sempre teve um “escutar o mundo” diferenciado. Do curso de engenharia, Mació aproveitou alguns princípios e os aplicou à acústica. Pesquisou empiricamente a construção de instrumentos musicais e influenciou fundamentalmente o processo criativo do Udigrudi. (link relacionado dissertação de mestrado Mació)

Uma das primeiras produções do Circo Udigrudi foi Gambira GoiabaSuíte Urbana. Essa criação coletiva foi proposta por mim e foi inspirada na leitura de O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien. Quando acabei de ler o último livro da coleção (no Brasil foi publicado em sete volumes), convidei os amigos palhaços para escrever uma saga da construção de Brasília, onde os delfos e outras criaturas lendárias viviam em paz até a chegada do plantador de prédios. O espetáculo foi concebido sempre levando em conta a experiência adquirida com o grupo Músicas-a-tentativa. Esse grupo era formado por João Rochael (o Gato), Nonato Veras, Aloísio Batata, Marcio Vieira (Mació), Luciano Porto e Marcelo Beré (o grupo teve outras formações e elementos, mas isso é outra estória) e a ideia era fazer atentados poéticos/musicais, ligando as tripas da malha urbana. Mació e Gato foram convidados a participarem da Gambira Goiaba e trouxerem a Suíte Urbana, uma série de poesias da Música-a-tentativa. O espetáculo foi apresentado para milhares de crianças que lotaram a sala Villa Lobos do Teatro Nacional de Brasília em 1983, durante uma colônia de férias. Nesse espetáculo havia um embrião que se desenvolveu por toda a carreira artística do Udigrudi e seus membros. Uma partitura cênico-musical, recheada de instrumentos feitos em casa, completamente diferenciados dos instrumentos convencionais, apresentada de uma forma inusitada e divertida, onde a lógica do palhaço é colocada em cena. Desde o começo de suas carreiras, os palhaços do Udigrudi ficaram conhecidos como “excêntricos musicais”.

Em 1998, o Udigrudi montou O Cano, espetáculo inspirado em uma ideia de Luciano Porto e criação de instrumentos musicais por Mació. A direção do espetáculo ficou a cargo de Leo Sykes, diretora inglesa vinda de um estágio na Dinamarca como assistente de direção de Eugenio Barba do OdinTeatret. (link para CV Udigrudi) Esse espetáculo rodou mundo depois de ganhar o prêmio Angel no Fringe Festival em Edimburgo em 2000. Em seguida, Leo dirige o espetáculo OvO, premiado em Cuba com melhor espetáculo estrangeiro em 2008. Leo dirige outros espetáculos da companhia, entre eles Embarque Nessa, Lixaranga, Devolução Industrial e o curta-metragem A Casa do Mestre André. O ponto comum de todas essas produções artísticas é o excentrismo musical. Os membros palhaços da companhia traziam os elementos – Mació como construtor de instrumentos musicais, Luciano como construtor de cenários e palhaço e Beré para bagunçar o processo – para junto com Leo criarmos a partitura excêntrica-musical de cada obra. A partitura não precisava ser escrita. Os elementos e instrumentos eram criados no processo de concepção da composição; muitas das cenas que fazem parte da partitura foram fruto de improviso durante os ensaios. Fragmentos desses improvisos eram cristalizados e depois colocados em forma de blocos de sequencias cênicas. Alguns instrumentos foram criados ou modificados para que fossem parte da cena. Muitos ganharam vida própria, além de nome e sobrenome. Toda minha vida artística e durante toda minha trajetória como palhaço, sempre escutei a expressão “excêntrico musical” como forma de definir a linha de atuação do Udigrudi. Portanto, essa pesquisa é baseada na minha experiência como excêntrico musical.

Mas, o que significa excêntrico musical?

A fim de esclarecer o escopo de minha pesquisa, gostaria de trazer de volta algumas das ideias desenvolvidas durante meu doutorado. Em minha tese, Poéticas do Palhaço, apresento uma abordagem da prática do palhaço que está sob o guarda-chuva do que chamo de “desajuste”. Sugiro que o palhaço é um desajustado de profissão e que existem alguns princípios de prática que definem o palhaço. Dos quatro princípios esmiuçados na época (Objetos, Relação, Corpo e Lógica), a lógica do palhaço é a que quero destacar agora. A lógica do desajuste está na base da prática do palhaço visto que “a lógica do palhaço se traduz em ação, isto é, o palhaço pensa com o corpo”. As ações do palhaço revelam um tipo diferente de lógica que desafia os princípios da lógica ortodoxa ou cotidiana. Lógica para o palhaço não é necessariamente lógica para um não-palhaço. Um palhaço é o que um palhaço faz, não importa o quão sem lógica possa parecer! Os horizontes da minha pesquisa podem ser vistos quando essa lógica desajustada é aplicada à música.A criatividade excêntrica de talentosos artistas performáticos não se encaixa nas convenções de uma sociedade conformada e traz uma nova luz para as artes performáticas.

De acordo com o Cambridge Dictionary, excêntrico é algo ou alguém estranho ou incomum, às vezes de maneira humorística: inabitual e inesperado, ou difícil de entender: diferente de outros do mesmo tipo de maneira surpreendente, interessante ou atraente.

Segundo Ermínia Silva:

“O conceito de excêntrico, em si, dá margem à uma infinidade de possibilidades que vão desde denominações na área da saúde (esta pessoa é excêntrica no sentido de portador de transtorno mental) até a tentativa de denominar palhaçoexcêntrico “apenas” aquele que toca instrumentos “não usuais” em seus espetáculos. Ao pesquisarmos em dicionáriosdisponíveis na internet, excêntrico no sentido de “fora do comum” apresenta os sinônimos: bizarro, esdrúxulo, esquisito, esquisitório, estapafúrdico, estapafúrdio, estrambólico, estrambótico, estranho, estúrdio, excepcional, exótico, extravagante, heteróclito, incomum, irregular, mirabolante, singular, surpreendente. Mas, há outras formas de utilizá-los para uma pessoa por ser: caprichoso, novo, louco, diferente, lunático, maníaco, grotesco, ridículo, extraordinário, incrível, insólito, tipo, rato, delirante, desnatural, esquipático, funambulesco, gozado, original, sistemático, sofisticado, voluntarioso, baldoso, barroco, psicodélico.”

Alice Viveiro de Castro comenta a dificuldade de se definir o que é um palhaço.

O palhaço é a figura cômica por excelência. Ele é a mais enlouquecida expressão da comicidade: é tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem nenhum compromisso com qualquer aparência de realidade. O palhaço é comicidade pura. O palhaço não é um personagem exclusivo do circo. Foi no picadeiro que ele atingiu a plenitude e finalmente assumiu o papel de protagonista. Mas o nome palhaço surgiu muito antes do chamado circo moderno. Aliás, seria melhor dizer “os nomes”. Uma das grandes dificuldades que a maioria dos autores encontra ao estudar a origem dos palhaços está na profusão de nomes que essa figura assume em cada momento e lugar. Clown, grotesco, truão, bobo, excêntrico, tony, augusto, jogral, são apenas alguns dos nomes mais comuns que usamos para nos referir a essa figura louca, capaz de provocar gargalhadas ao primeiro olhar.

Na literatura do palhaço, Tristan Rémy oferece uma abordagem diferente para o palhaço excêntrico. Ele ressalta que o excêntrico é completamente diferente do Augusto. Na tradição do palhaço há o Banco ou Whiteface (o “homem sério”) e o Auguste (o “idiota”). Rémy afirma que “psicologicamente, o excêntrico é o oposto... ao contrário do Augusto, o excêntrico nunca é um imbecil. Ele é um augusto astuto, engenhoso, astuto mesmo, que sempre acaba no topo. Toda a sua ciência consiste em acumular obstáculos em quantidade suficiente para ter o mérito de triunfar sobre eles de uma vez.” (Rémmy 1945: 369) Para o teórico do palhaço, o excêntrico era um artista autônomo. “O excêntrico não tem parceiro em quem confiar para o drama. Seus fracassos são criados não por um parceiro palhaço, mas por eles mesmos. Eles são vítimas de seu próprio corpo, ou de seus adereços. Eles são dois em um, tendo que dirigir a ação e ser vítima dela. OWhiteface conduz a cena. O augusto precisa apenas reagir. Mas o excêntrico deve ser ao mesmo tempo inteligente o suficiente e ter uma ideia para fazer as coisas acontecerem e ser capaz de fazer as coisas acontecerem, e ainda assim tolo o suficiente para fracassar. (…) Do augusto idiota, passando pelo ingênuo, pelo indiferente, chegamos ao augusto inteligente – o excêntrico." (Remmy 1945:409). Na verdade, Remmy estava falando sobre Grock, o “rei dos palhaços”. O palhaço suíço Grock é um representante clássico do que é um palhaço musical. Ele tocava mais de 47 instrumentos convencionais de forma não convencional. Além disso, mais uma série de fontes sonoras (balão de borracha, cadeiras e adereços) que ele tocava alegremente. Grock era um virtuoso como músico e como palhaço. O representante por excelência de músicos excêntricos! No entanto, o conceito de músicos excêntricos transcende a genialidade de Grock e foi adotado para definir todo um ramo da árvore da arte do palhaço. Muitos palhaços, ou grupos de palhaços, passaram a ser chamados de “músicos excêntricos”.

CASTRO, Alice Viveiros de. O elogio da bobagem: Palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005. Pg11

Silva, Erminia
Palhaçosexcêntricos musicais / Erminia Silva e Celso Amãncio de Melo Filho. Rio de Janeiro: Grupo Off-Sina, 2014. Pg14

Rémmy, Tristan (1945) Les Clown (Paris: L’Arche) pg:369, 409

Marcelo Beré marcelobere.org